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#2058589 ·published 2011-05-13 22:17 UTC
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Revisitando o passado: uma caloria não é uma mera caloria (Kekwick e Pawan, 1956)
by Sérgio Veloso

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Hoje decidi tirar o pó aos arquivos e ressuscitar um artigo de 1956 esquecido nos anais da história, ou melhor, engavetado por ser bastante desconfortável. Trata-se do trabalho seminal de Alan Kekwick e Gaston Pawan, publicado no prestigiado The Lancet há mais de 50 anos (link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/13347103). Este estudo é um dos mais brilhantes do seu tipo e merece ser recordado. Foi talvez a primeira prova consistente em humanos de que nem todas as calorias são iguais.


Estudos precedentes de Lyon e Dunlop e de Pennington já apontavam para a maior eficácia das dietas low-carb em induzir perda de peso. Não se sabia no entanto que factor tinha mais importância: a restrição energética ou a proporção de macronutrientes. Os investigadores isolaram um grupo de obesos admitidos no Hospital de Middlesex, maioritariamente mulheres, e realizaram uma série de 3 experiências muito elegantes que passo a descrever muito sucintamente.

Ensaio 1 – Foi fornecida aos participantes a dieta comum da época, constituída por 47 % hidratos de carbono, 33 % gordura e 20 % proteína. As proporções foram mantidas em regimes de diferente valor energético: 2000 kcal/dia, 1500 kcal/dia, 1000 kcal/dia e 500 kcal/dia. Os resultados vão ao encontro da teoria actual. Verificaram que havia uma relação entre a redução calórica e a perda de peso quando as proporções de macronutrientes eram mantidas. No entanto, essa relação não era linear, ou seja, a cada 400 g de peso perdido não correspondia um deficit energético de 3500 kcal, aproximadamente.

Ensaio 2 – Se a perda de peso depende directamente do deficit calórico, dever-se-ia observar uma perda de peso constante independentemente da composição da dieta. A equipa sujeitou 14 pacientes a dietas de 1000 kcal, dividindo-os em 3 grupos, cada um dos quais com uma dieta composta por 90 % gordura, proteína ou hidratos de carbono. Os resultados foram surpreendentes. O grupo com 90 % de gordura foi o que perdeu mais peso, seguido de perto pelo grupo com proteína e a uma enorme distância do grupo com 90 % de hidratos de carbono, na qual alguns até ganharam peso (ver o gráfico que se segue). Os autores concluem que “tão diferentes foram as taxas de perda de peso nestas dietas isocalóricas que a composição da dieta supera em importância o consumo de calorias”.

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Ensaio 3 – De forma a confirmar este último ponto, uma terceira série de indivíduos, que se verificou conseguir manter o peso mais ou menos estável numa dieta "normal" (47:33:20) de 2000 kcal, foram colocados numa dieta de 2600 kcal constituída apenas por gordura e proteína. Todos menos uma perderam peso, independentemente do excedente de 600 kcal. Esse caso particular foi explicado pela propensão em reter água durante a menstruação que coincidiu com a experiência. Na verdade, como podemos observar na seguinte tabela, existe até uma tendência ligeira a ganhar peso na intervenção mais rica em hidratos de carbono.

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Estou certo que os mais atentos já estão a pensar que a acentuada perda de peso nas intervenções low-carb se deve à perda de água que geralmente acompanha a fase inicial destas dietas. Essa hipótese não foi descurada pela equipa. O teor corporal em água foi avaliado e concluiu-se que “em todos os pacientes, a água disponível inicialmente representava 50-52.5 % do peso corporal. Ao fim de 4 semanas nas dietas, as proporções de água e peso corporal mantiveram-se (50-52 %)”. O rigor da equipa levou-os a avaliar também o teor hídrico dos alimentos e ajustar o consumo total para 3 L/dia. O mesmo foi feito em relação ao sal. A hipótese de uma absorção diferencial dos nutrientes também foi posta de parte experimentalmente. Na verdade, os relatos de colegas referem frequentemente que o rigor da equipa era doentio. Os pacientes eram mantidos isolados, pouco ético para os dias que correm, e os resultados eram descartados sob qualquer suspeita de um desvio ao protocolo.

Não é preciso um grande esforço mental para compreender as implicações deste estudo, apenas citado por quem tenta navegar contra a maré e questiona o paradigma actual do que é a dieta ideal para perda de peso. Convém salientar que, à luz deste trabalho particular, não são refutados argumentos como carências nutricionais ou implicações metabólicas de regimes extremos. É no entanto desmascarada a ideia de que "uma caloria não é mais do que uma caloria" e de que o metabolismo se resume à primeira lei da termodinâmica. O organismo não é um sistema isolado e nem toda a energia consumida está disponível para trabalho. Fica prometido um pequeno artigo sobre o assunto, se bem que terei de recordar primeiro alguma Física, uma disciplina que nunca foi um dos meus maiores talentos confesso.

É importante também deixar claro que não considero uma dieta composta por 90 % de gordura uma opção viável. Pelo que se sabe hoje, essas dietas muito extremas resultam numa acentuada perda de massa magra. A explicação é muito simples na verdade e não requer mais do que biologia do ensino secundário (julgo eu). O fornecimento inadequado de proteína ou glicose diminui a produção de esqueletos carbonados do ciclo de Krebs. Alguém se lembra da frase “as gorduras queimam à chama dos hidratos de carbono”? Este princípio não está correcto e deveria ser reescrito como “as gorduras queimam à chama do oxaloacetato”, um intermediário do ciclo de Krebs que se combina com o acetil-CoA derivado da oxidação lipídica (e da glicose também). Se a capacidade de produzir este composto for inferior ao necessário, o organismo canibaliza tecido muscular de forma a providenciar aminoácidos precursores de esqueletos carbonados do ciclo de Krebs, de forma a conseguir converter a gordura em energia útil. No entanto, o requerimento de proteína ou glicose dietética não é assim tão grande para alimentar esta via metabólica. Tratando-se de um ciclo, os compostos são regenerados e reciclados no processo. Todas as dietas ricas em gordura devem-no ser também em proteína. Arbitrariamente, eu diria que uma dieta não deve ultrapassar nunca os 70-80% de gordura de forma a conservar a massa muscular. É um valor que ainda não foi estabelecido e, como tal, é alvo de grande especulação.

Este estudo surgiu numa altura em que a mentalidade era bem mais aberta. As dietas low-carb não eram tão estranhas quanto isso e muitos médicos as recomendavam com bastante sucesso. Hoje dificilmente se realizariam ensaios deste tipo, em grande parte por implicações éticas e preconceitos descabidos. É evidente que existem limitações e a capacidade técnica da altura era uma sombra da que dispomos actualmente. O número de pacientes é também muito reduzido. De qualquer forma, foi um trabalho que lançou a semente para uma corrente científica marginal que não morreu com o estrangulamento dos anos 70-80, altura em que a política se sobrepôs à ciência. Alguns homens mantiveram-se firmes às suas convicções, mesmo comprometendo a sua carreira e reputação. Tenciono recordar aqui alguns dos seus trabalhos para que não caiam no esquecimento.