A resistência social aos saberes heterodoxos.
740 words
30 September 1999
Jornal de Notícias
JNLNEG
Portuguese
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O autêntico - e imprescindível - cepticismo não tem que ser, "à priori", contra nada, mas antes um processo que considera e examina todas as hipóteses
COLABORADOR JOAQUIM FERNANDES (
) O cidadão norte-americano, de seu nome Ingo Swann, dirá muito pouco à generalidade dos portugueses e dos leitores, em particular. Bastará dizer-se que foi um dos sujeitos, considerados "sensitivos", utilizados em investigações de laboratório, pela CIA, em projectos de estudo sobre alegadas capacidades extra-sensoriais, capazes de servir propósitos de "inteligência" e de espionagem militares.
À primeira vista, toda esta questão poderia ser vista como mais um episódio dos popularizados "Ficheiros Secretos". Mas não é. Aliás, em anteriores oportunidades e lugares, pudemos descrever o essencial destas experiências ("Projecto Stargate", entre outros), conduzidas na década de 70, na Universidade de Stanford, com o selo de "secreto", e cujos relatórios foram, recentemente, desclassificadas pelas autoridades norte-americanas ao abrigo da Lei de Liberdade de Informação.
[De sujeito de laboratório a analista das suas vivências pessoais, Ingo Swann produziu um interessante texto para a "Comunidade da Inteligência, (i.e., a CIA) sobre a resistência social aos fenómenos ainda não sistematizados, mormente os que se referem ao universo dos fenómenos "psi", como aqueles que protagonizou, juntamente com outros, no decurso de interessantes experiências de percepção extra-sensorial.
Este "sujeito" de laboratório chama a atenção para o papel da dúvida que, sem reservas, deve fazer parte de todo o processo investigador. Globalmente, os que duvidam recebem, em termos sociais, uma maior legitimação; aplicada às experiências humanas, a dúvida assume prioridade, mas pode, como salienta Ingo Swann, ser "subtilmente desviada da matéria em análise para os contextos das perspectivas intelectuais que acabam por ser envolvidas".
Com base nestes postulados, Ingo Swann sublinha o facto de uma vez que "a experiência humana dos limites (ampliação e ultrapassagem dos conhecimentos temporários) tenderá a ser eterna, retira ao cepticismo a veleidade de propor dúvidas perpétuas, sendo apenas legítimo levantar dúvidas temporais, dentro do quadro intelectual transitório do qual elas emergem".
O exemplo prático sugerido diz respeito à história de Albert Einstein, o qual, em 1905, introduziu a "Teoria da relatividade especial", enquanto estudante e empregado no gabinete de registo de patentes, na Suíça. A resposta dos cépticos, face à sua teoria e ao cientista, foi avassaladora. Cerca de 1925, segundo os historiadores, o debate sobre a questão representaria o maior volume de textos jamais impresso até à data. Até que, entre 1927 e 1929, a teoria de Einstein foi aceite como comprovativa da existência da relatividade. "Neste caso, as respostas cépticas e demolidoras provaram ser apenas transitórias, por mais indignadas a altissonantes que tenham sido" - conclui o articulista.
O texto aduz algumas considerações acerca da estratégia dos cepticismos a priori e da sua faceta, porventura, mais deselegante e ilegítima: actuar antes do facto, em vez de expor depois do exame do facto. Aqui, caberia a acusação de maquiavelismo, sistemático e sintomático em muitas ocasiões da História da Ciência, pela voz dos tribunais confessionais que não podiam distinguir ciência e religião.
Um exemplo de maquiavelismo "demolidor" (que o termo original "debunking" traduz de modo visceral e cruel) seria a história do mágico norte-americano James Randi, conforme a opinião de Michael A. Thalbourne publicada no "Journal of the American Society for Psychical Research (Outubro, 1995, vol. 89, nº 4). O articulista preocupa-se em desmistificar os truques circenses de Randi, um ilusionista que tem vindo a parodiar, em palco, toda e qualquer invocada capacidade extra-sensorial.
Importa recordar que a etimologia do termo "céptico" sofreu, ao longo dos tempos, alterações substanciais. Por exemplo, no Renascimento, quando o cisma entre ciência e religião se agudiza, o cepticismo traduzia, claramente, a "dúvida relativa aos princípios básicos religiosos", como sinónimo de "anti-religião". Hoje, o céptico encarna, com frequência, o indivíduo que nega toda a possibilidade de novos conhecimentos e descobertas.
Em suma, o autêntico e útil cepticismo não deve utilizar rumores nem basear-se em pré-concepções, não testadas e analisadas pessoalmente, na abordagem aos novos problemas e campos da ciência. Tal estratégia de "demolição" incondicional tende a eliminar, por corrosão física e moral, indivíduos que, muitas vezes, não sabem explicar, racionalmente, as suas aptidões e experiências extraordinárias. O ridículo e a difamação já fizeram demasiadas vítimas ao longo da História humana.
) Professor da Universidade Fernando Pessoa. E-mail: jfernan@esoterica.pt].
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